‘ARIRANG’ entre raizes e ousadia. BTS impõe sua narrativa.
- revistatuntun
- 27 de mar.
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Atualizado: 2 de abr.
O retorno do BTS com ARIRANG reflete ansiedade, superação e propósito, entregando um álbum sólido e significativo, mesmo em meio a opiniões divididas.

‘Arirang’, um álbum que celebra e relembra a trajetória de um BTS que nasceu do hip hop e se desabrochou em um pop único no seu auge, com a era de Love Yourself.
Após 7 anos, o retorno do grupo trouxe nuances de amadurecimento e de experiências solo que se encontram como uma só ao se reunirem novamente para a criação do álbum.
Produzido nos Estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles, e tendo sua pós-produção e arremate na Coreia do Sul. A produção musical do álbum tem um frescor experimental, que rebusca as antigas eras com um novo olhar, com mais liberdade de ser diferente.
Muitos confundiram o trabalho minucioso de sobreposição de reverb, vocais de 7 vozes diferentes cortadas, aumentadas e repetidas com um simples autotune. Quando se tem tantos grandes produtores trabalhando juntos, uma pós-produção refinada pelas mãos dos 3 pilares do BTS, chega a ser vazio e sem fundamento confundir um trabalho detalhado com apenas uma simples função de processar o áudio. Quando a crítica nasce do rancor, qualquer um se torna especialista.
Amadurecimento que se encontra nas letras, no posicionamento e na coragem de testar e experimentar. Com a maioria dos membros na casa dos 30 anos, vemos o conforto em contar experiências pessoais e íntimas, sem receio de soar explícito demais.
O sucesso amplia não só aplausos, mas também expectativas.
E a vontade de te ver falhar.
Pós 7 anos, fazer um retorno com a balada melancólica “SWIM” como single foi corajoso, apesar de ter havido um debate interno sobre se deveriam apostar nessa carta ou não. Em vídeo especial pré-estreia do videoclipe de ‘SWIM’, Jimin comenta que relutou com essa escolha da maioria. A expectativa do grande público refletia numa ideia de um BTS representado apenas por seus grandes singles, como ‘ON’, ‘Idol’ e ‘Black Swan’.
Arirang reúne a busca pelas raízes, não somente musical, mas também cultural, com o olhar no pop global. Aqui é onde as ideias e expectativas do grande público começam a rachar. O álbum contém grande parte de suas composições feitas em inglês, o que causou um estranhamento e até mesmo uma relutância por parte dos ouvintes mais desavisados e desatentos ao que o grupo vem pautando e comentando em suas entrevistas.
Entre álbuns solo e alistamentos, Namjoon (RM), Hoseok (J-Hope) e Yoongi (SUGA) foram muito vocais sobre suas ideias e posicionamento perante o amadurecimento musical e posicionamento artístico do BTS na indústria da música. Para eles, o BTS já ultrapassou a linha tênue do “k-pop” e do “pop ocidental”. Agora, o grupo se encontra apenas como músicos consolidados o suficiente para trabalharem com o estilo musical que for desejado, sem se prender a uma caixa exclusiva de uma única forma de produzir.
Com um retorno munido de referências culturais, desde a faixa ‘No. 29’, onde ecoa o som do Sagrado Sino do Grande Rei Seongdeok. O nome se dá pelo sino ser o tesouro nacional número 29 da Coreia do Sul. Tocado pela primeira vez em mais de 20 anos, exclusivamente para o BTS. A faixa marca a transição do hip hop carregado para uma parte amena e mais pop global do álbum.
Em ‘Aliens’, temos o grupo se posicionando fortemente sobre o racismo, a alienação de serem asiáticos no Ocidente e a pressão para se encaixarem nos padrões internacionais.
“Oh my god, do I look too funny?” — J-Hope em Aliens.

Se mostrando fiel às suas raízes e demandando respeito — “If you wanna hit my house, shoes off at the door”, se referindo ao costume oriental de não utilizar sapatos sujos dentro de casa. — “The nerve on you. Shameless. Show me some respect.” — “Pardon me Kim Gu Seonsaengnim, how do you feel?” Kim Gu Seonsaengnim foi um ativista da independência coreana e estadista que serviu como o sexto e último presidente do Governo Provisório da República da Coreia no exílio durante o domínio colonial japonês. Também lutou contra a divisão forçada da península coreana e buscou ativamente a reunificação.
A faixa encerra com uma poderosa frase, que poderia resumir essa crítica inteira — “I’m the only one who can speak English, but that' s how we kill.”
Hoje, o BTS não precisa falar inglês para ganhar o mercado musical e espaço. O BTS canta em inglês para marcar território; falar na língua do opressor não é submissão — é a prova de alcance e virada de jogo em cima quem vive no raso. Enquanto o BTS chegou comendo pelas beiradas, hoje eles sentam no topo e produzem nos próprios termos. As referências coreanas não são para ocidentais; são para o próprio povo e para aqueles que têm o mínimo de interesse de entender.
Para quem se propõe a realmente ouvir o álbum, entendendo suas letras, significados e proposta. ‘Arirang’ se revela uma experiência desafiadora e imersiva. Ao longo de cerca de 40 minutos, o projeto transita por diferentes gêneros, conduzindo o ouvinte por uma jornada emocional que reflete o caminho percorrido pelos sete membros: desde o debut, passando por suas fases solo, até o reencontro neste retorno coletivo. Um processo que foi desafiador para si mesmos, marcado por tentativa e erro, até criarem algo com que se identificassem o suficiente para compartilhar com os fãs.
Mais do que agradar ao público, ‘Arirang’ parece nascer de um desejo íntimo dos próprios artistas, um espaço onde exploram livremente tudo aquilo que sempre tiveram vontade e curiosidade de apresentar aos fãs.
Do início ao fim, o álbum se mantém coeso, com uma narrativa consistente que transmite sua mensagem de forma sutil, porém precisa, construída com linearidade e intenção.
Sob luzes de aprovação ou sombras de julgamento, ao final do dia, todos ainda querem um pedaço do BTS.
Texto por Jady Bello.




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